quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Quarta-feira de cinzas

E assim acaba o carnaval.

A banda já parou de tocar, os gritos loucos dos foliões silenciaram-se, não há mais o som das buzinas, nem lança-perfume no ar, o confete pálido e imóvel no chão. Tudo se tornou cinza na quarta-feira.

Mas ainda posso ver e ouvir, distantes, os fantasmas e ecos de outrora: um rodopio no canto do salão imenso, uma gargalhada nem um pouco contida, taças de bebida sendo sorvidas em um segundo, um incauto toque de buzina, o burburinho dos que estiveram presentes, de repente até um trenzinho à minha volta.

A porta já foi fechada, a luz do dia quase não consegue entrar através das cortinas espessas nas janelas. No meio do salão, apóio o queixo nas mãos, e as mãos na ponta do cabo da vassoura. E assim fico, só, na penumbra, no vazio.

Hora de varrer o salão. Hora de guardar as máscaras, as fantasias. Hora de guardar as histórias do carnaval também. Se no coração ou escondida na gaveta mais funda da memória, depende do grau de arrependimento do folião.

Em culpa, saudade ou indiferença... assim acaba o carnaval.

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sábado, 26 de janeiro de 2008

Porta

De repente, a casa vazia. Sem móveis, sem cor, sem os cheiros e sem os risos (ou prantos) de outrora. Um olhar de adeus, a porta fechando, a chave virando - pela última vez.

O som da porta ao refletir nas várias paredes fazia o momento parecer ainda maior. O som duro, pesado, interminável.

Assim saí. Assim deixei para trás várias histórias, várias vidas. Fechei a porta. Joguei fora uma dezena de sacos de lixo. Levei só o que me era importante, o que me era bom, o que me era necessário: parti para tudo o que é novo.

Coloquei na mala os bons momentos, os risos de felicidade, as festas, o amor, a amizade; levei-a comigo. Deixei lá dentro, aprisionado, todo o resto. Não escaparão.



"Deixo toda a dor pra trás
Perdida num planeta abandonado
No espaço
E volto sem olhar pra trás"
Os Paralamas do Sucesso, "Busca Vida"

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quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A mesma ladainha de sempre

Abri hoje meu blogue e comecei a ler postagens passadas. Tanto as publicadas quanto as engavetadas.


Percebi nelas a mesma aura pessimista, a ironia, a escrita arrastada, o vocabulário repetitivo, os sentimentos intermitentes, a linguagem seca. Com a rara exceção de uma e outra felizes ou "piadistas".

A pouca quantidade de textos felizes não se explica por uma existência triste, não. Muito pelo contrário, como já disse aqui: tenho o péssimo hábito de pôr-me a escrever somente quando algo dói em mim.

E como o que dói normalmente é o que já passou (se bem que o porvir às vezes dói também)... resolvi mudar, abandonar esse passado que vem grudado aos meus pés, rastejando sob meu salto 15 (hehe), e que, embora não me impeça de caminhar, é um peso desnecessário que, sim, impede-me de voar.

É bem verdade que já consegui voar algumas vezes com essa joça presa aos meus pés, mas a queda veio inevitavelmente: preciso me livrar dessa tranqueira com urgência e em definitivo!

Não falarei mais dela, não pronunciarei seu nome, substituirei meus pensamentos tão logo eles venham à lembrança. Simples assim.

Há tanto para estudar, tanto para elaborar, tanto para definir, tanto para escolher... quanto tempo perco pensando no que podia ter sido, no que teria acontecido se eu tivesse falado "X" em vez de "Y", arrependendo-me de coisas que, se eu tivesse feito assim ou assado, teriam tido o mesmo resultado.

Agora tudo mudou: Libertar-me-ei!

Aliás, minhas asinhas já estão se abrindo novamente... já posso sentir (eu ia escrever "já sinto", mas aí me veio "Jacinto", que me lembrou de uma piada, que cortou todo o clima do meu texto... tsc, tsc... rsrsrsrs) ... enfim, como eu dizia... já posso sentir o vento pressionando minhas asas miúdas ainda, que pouco a pouco se desdobram para mais um vôo...

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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

21. Februar

Eu vinha aqui hoje falar de problemas. Problemas comuns, problemas fúteis. Mas ela vem e me cala. Ela me fez todos os problemas parecerem mínimos. Tão mínimos quanto inúteis.

Ela não me fez perguntas ou afirmações. Apenas passou e cobriu tudo de sombra. Não me interessa o que foi ontem, não me importa o que será amanhã: só importa que ontem era um dia luminoso e que hoje ela levou o amanhã.

Entrou silenciosa por aquela porta e silenciou toda uma casa. Enxugou o sangue escorrendo de um pequeno corpo e inundou o mundo com lágrimas. Tirou-nos o que era carinho infinito e alojou a saudade eterna em nossos corações.



"Ich liebte Dich aus voller Kraft
Auch bis in alle Ewigkeit
Ich denke, dass auch Du mich liebtest
(...)
Du wirst Deinen Weg beschreiten
Und finden all Dein Glück"
L'âme Immortelle, "21. Februar"



siga em paz, meu amorzinho... "Im schönen Monat Februar"....

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