quarta-feira, 11 de junho de 2008

Surreal I - parte 2

E não é que existe uma R. São Paulo, próxima à antiga R. da Liberdade (de 1865 a 1952), atual Av. da Liberdade? As ruas não fazem esquina... mas, de fato, havia um cemitério na região até 1883... : O


link para a parte 1: http://pri-byron.blogspot.com/2007/12/surreal-i.html
(isso foi sonhado exatamente como consta no texto)


edição em 29/07/08: só hoje vi que esqueci de dar os créditos da informação acima!!! 2h30 da madrugada, na Galvão Bueno, e o Fábio contando histórias de cemitério e fantasma... justo para mim, que morro de medo!!! iiirc!!!

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sexta-feira, 28 de março de 2008

Surreal II

um pássaro viaja no crepúsculo, na abóbada cor de pêssego, em seu monólogo romântico e frívolo com o cônjuge monógamo... monótono.

coníferas preenchendo de triângulos a pictórica página do semicírculo míope pouco nítido.

nômades cefalópodes de células simétricas refugiam-se no mar gélido; o tráfego náutico incomoda-os.

um simpático bêbado, trôpego, encontra uma pérola em sua pálpebra... era uma lâmpada.

ao longe, o mitológico hipopótamo áspero e herbívoro sente-se ridículo comendo nêsperas e tâmaras no árido ártico há um século.

o decrépito filósofo mínimo perde-se em um símbolo cônico, joga-se a pensar, pálido e apático, apoiando-se em seu cúbito no minúsculo cubículo em que habita.

Álvaro, do tráfico de narcóticos, arrumou um cúmplice para seu péssimo hábito.


cúmulo de textículos sem lógica causam péssimas máculas nessa ótima página: síndrome alegórica (e alcoólica?) de proparoxítonas com oráculo léxico e dicionarístico.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Surreal I*

Três mosqueteiros vestidos à caráter diante do portão do cemitério, com espada e tudo. Bem ali na esquina da Rua da Liberdade com a Rua São Paulo, eu vi.

Era fim de tarde, levavam flores a mulher e seu marido, em buquê e em vaso improvisado. Flores muito coloridas, talvez gérberas. Ou cravos-de-defunto.

A mulher desceu as escadas que levam ao cemitério, roubou a espada de um dos mosqueteiros e pôs os três a correr. Eles reclamavam com um português arcaico, impossível de entender, a pronúncia tão diferente... Ela muda.

A mulher e o marido cruzaram o portão, ela na frente, ele atrás, cabisbaixo. Sabiam bem aonde iam, não olharam para os lados, não trocaram uma palavra. Pararam. Invisível, eu observava. E sabia o que aconteceria depois: já era a segunda vez que eles faziam o ritual diante de meus olhos.

O marido jogou as flores sobre o túmulo, pegou o vasilhame antigo de leite, levou-o ao bar e, com um sinal, mandou encher-lhe de pinga. Tomou tudo sozinho, em silêncio, e ficou estirado na terra seca em frente ao bar.

A mulher deitou delicadamente seu buquê sobre a terra que cobria a cova — de quem seria? Fez uma oração em pensamento, virou as costas e partiu. Até onde pude ver, não olhou para trás.

Sozinha caminhei ainda por entre as imponentes estátuas já escurecidas com o limo e poeira que cobrem os esquecidos. A deslumbrante homenagem — esquecida. O único com flores era aquele de terra, que não tinha sequer o nome do falecido. O único com cores e com o frescor das flores recém apanhadas.

Entre anjos e santos, três mulheres em estátua pareciam cair de costas sobre um túmulo, à visão de uma cobra em posição de ataque. No lugar da cruz, apenas uma cobra. Tantos rostos tranqüilos de estátua, só aqueles três demonstravam pavor.

A escuridão da noite avançava, turvava o céu cinzento. De repente, fui tomada pelo medo, procurei desesperadamente pela saída.

Os corredores entre os túmulos pareciam mais estreitos e compridos agora, a terra seca e escorregadia exigia maior cuidado e atenção, o portão tão longe ainda. Não mais olhei para as estátuas, tive medo de agora elas me fitarem.

Eram quase 22h e ainda escurecia. Aliviada, alcancei o portão lateral sem que nada de sobrenatural tivesse me acontecido.

Lá fora, só a ausência de vida era a mesma. As cores da manhã preenchiam os olhos, o cheiro do orvalho evaporando da grama inflava os pulmões.

Já não se viam as paredes do cemitério, quando uma mulher brotou de um buraco no chão. Toda vestida de branco, com olhos que não pareciam ver, e cabelos pretos, lisos e curtos. Caminhava pela rua gramada, até chegar à ladeira de pedra. Entrou, sem bater, em uma casa de madeira desbotada, atravessou a porta de pau meio podre que um dia foi verde.

Por curiosidade, ou na esperança de algo sobrenatural, bati à porta. Duas mulheres a abriram, cabelos castanhos, longos e desgrenhados, vestidas com roupas amareladas (talvez tenham sido brancas algum dia). Abriram a porta, mas não perguntaram quem era ou o que queria: deixaram-na aberta e voltaram às suas atividades.

Perguntei da mulher de cabelos curtos. Uma delas disse: "é ela", apontando para a outra. "Ela se disfarça ao sair à rua". Olhei mais uma vez: não parecia em nada a mesma mulher que saiu do buraco. Voltei à ladeira de pedras. E fim.


* ainda não sei se haverá outros, mas como esse é o primeiro, fica com I

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