quinta-feira, 10 de maio de 2007

Olfato

Tantos e tantos cheiros passados...

Subitamente algum deles vem e me traz toda uma sensação de outra época. Hoje foi um só, não, não aquele. Um outro. Que me lembrou de algo muito mais duradouro, muito mais saudoso.

O cheiro dos primeiros meses na faculdade... faz tempo... na verdade, perfume de um cidadão que se sentava bem do meu lado nesse período, que depois não virou meu amigo, não sei se levou adiante o curso. Mas deixou o meu "cheiro de faculdade".

Só vir esse cheiro e já me vieram à mente as primeiras aulas de cálculo, a voz aguda do professor tão fascinante quanto amedrontador dizendo a frase mais ouvida durante o curso: "Prove isso!".

De repente, aquela mesma angústia que senti ao conhecer a potência do continuum... Até então, eu não sabia que algo infinito poderia ser mais infinito que outro, sem que o segundo fosse de alguma forma limitado!

E também as horas da madrugada que eu passei, de fato, tentando provar que 1 era diferente de 0, ou provar o binômio de Newton pelo "princípio da indução finita", vulgo PIF. Acho que eu realmente ignoraria a beleza de Vênus, pois nunca consegui gostar desse tal binômio. Por culpa dele, unicamente dele, minha lista de exercícios de PIF ficou incompleta!

O calhamaço do livro sempre procurado na biblioteca, "Teoria ingênua dos conjuntos" — nunca encontrado, depois xerocado de outra xerox, que sabe-se lá como foi conseguida —, na esperança (vã!) que ajudaria a entender o curso. Depois o Guidorizzi, mais emprestado da biblioteca que utilizado realmente... Hoje ainda acho que toda aquela matéria que eu tentava entender saiu unicamente da cabeça do meu professor!

Depois, a lembrança do professor que falava tão fraquinho que se alguém sentasse na segunda fileira, não conseguiria ouvir a aula. A aula e as histórias hilárias da computação na década de 60. Rs rs.

Veio-me ainda a confusão que as "fbfs" (fórmulas bem formadas) me causavam... árvores e mais árvores de fbfs!!! A apostila de capa azul, com o símbolo — que eu só entendi ao final do semestre — da Área de Matemática impressa, e aquela impressão horrível no interior, fácil de identificar como saída da gráfica da Fatec.

Saudade. Saudade até da impressão ruim. Da sala apertada. Da xerox lotada. Do bolo e da coxinha do lado da xerox. Mais ainda do pessoal que viveu comigo tudo isso. : (

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quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Cheiro de Saudade

Até poucas horas atrás, esse cheiro de saudade fechava meus olhos, fazia-me reviver momentos de felicidade. Eram encantos e desencantos misturados a esse doce cheiro.

De repente, o cheiro de saudade, que antes tinha nome de um homem e marcas profundas de paixão, passou a ter nome de frasco e marca comercial.

Agora meu cheiro de saudade perdeu o encanto. Virou apenas um vidro em uma prateleira.

Senti-lo não mais me faz pensar em algo sobrenatural, como alguém enviando um sinal olfativo para não ser esquecido: É apenas mais um ser humano que comprou o perfume em um frasco na lojinha da esquina.

Pior: aquela loja comum que me faz espirrar sempre que passo em sua frente!!!

Meu cheiro de saudade virou cheiro de perfume.


"Cause things are gonna change so fast
All the white horses have gone ahead
I tell you that I'll always want you near
You say that things change, my dear"
Tori Amos, "Winter"

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sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Gelo

Novamente aquela dorzinha que incomoda, aquele sentimento de impotência diante do destino. O futuro, quem disse que é possível mudá-lo? Quem plantou essa semente de esperança e malogro na minha alma?

Em vão esperei por melhores dias. Tentei fazê-los belos, tentei me alegrar, e algumas vezes até consegui! Mas "vem de repente um anjo triste perto de mim"*. Quando eu mais estava eufórica, pensando no belo dia que viria amanhã, cai o peso do passado sobre minha cabeça, apenas para acordar-me de meu sonho.

E dói. A dor continua sempre e sempre, como se não quisesse ser esquecida. Maldita hora que eu prometi a ela que não a esqueceria jamais, maldita. Dizem que quanto mais pronunciamos uma palavra, mais ela perde de seu significado, mais banal ela se torna. Por isso digo tantas vezes maldito. Maldito, maldito, maldito. Porém esta parece não perder nunca seu significado de passado e tristeza.

Queria poder um dia cantar aquela música que diz: "heute klingt dein Name wie ein leeres Buch"** (hoje teu nome soa como um livro em branco). Mas ainda vejo em teu nome toda a nossa história. Em teu maldito nome soam todas as tuas palavras falsas, todas as minhas ilusões perdidas, e brilham todas as lágrimas que derramei por ti.

O futuro agora é turvo. Só resta o brilho das minhas lágrimas, e o brilho do gelo da minha alma. Só no Eterno Verão derreterá esse gelo.


* "Via Láctea", Legião Urbana
** "Dich zu töten fiel mir schwer", Lacrimosa

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